domingo, março 18, 2012

Resenha crítica: Capítulo XII - O Mundo Coberto de Penas

Vidas Secas, livro lançado originalmente no Brasil em 1938 (composto por dezenas de páginas, distribuídas por treze capítulos), foi escrito pelo romancista Graciliano Ramos e polemizou ao descrever a situação do povo nordestino em sua mais sincera e exata realidade: mazelas desmascaradas publicamente. A 2ª fase do Modernismo, chamada de regionalista, era o momento literário predominante na época. Uma das mais importantes obras da literatura brasileira até hoje.

Tratando diretamente do prenúncio de chegada da seca, tendo como sinal claro e direto as arribações, o capítulo exalta, alternadamente, as virtudes de Sinhá Vitória, que dos personagens adultos da obra, era a única com algo de valor: sua capacidade de calcular – neste caso, o quanto Fabiano deveria receber de seu patrão, contestando, assim, a falta de moralismo e honestidade do mesmo. E a capacidade perceptiva que possuía. Possivelmente, Sinhá Vitória é a personagem que mais tem tempo para pensar/raciocinar dentre todos, pois enquanto Fabiano trabalha o dia todo e dorme à noite, ela permanece em casa cuidando dos afazeres domésticos – e somente; os filhos não são educados, sabendo-se que há um distanciamento enorme entre cada membro da família, sendo eles somente repreendidos quando preciso, e quando não também – por isso conseguia atestar verdades. (Destaca-se a apreensão inteligente da personagem Sinhá Vitória, que percebe que os urubus matavam o gado, e fala para Fabiano, que o entende erroneamente; mais tarde é que vai perceber que, indiretamente, os gados morriam pelas ‘’mãos’’ das arribações (temos aqui mais uma prova da sabedoria dela).

Onde Fabiano também tem lembranças amargas da cachorra Baleia, e, portanto, algumas visões (e previsões, com base no próprio conhecimento de causa) realistas do futuro – ele sabe que logo terá de partir com a família em busca de um novo lugar para viver e se reconstituir; chama Vitória para tomar em conjunto algumas decisões, tentando aprontar o máximo possível de abastecimento nutritivo – aproveitando, inclusive, os urubus que havia matado.

Em certo ponto do capítulo, pensa infeliz no soldado amarelo. Temos aqui um claro e grandioso ponto de conformidade por parte do personagem, onde aceita novamente que seja pisado e humilhado, afinal é só um cabra, um bicho, não um homem de verdade.

Graciliano Ramos expõe os sertanejos de forma cruel, direta e objetiva. Até mesmo porque a realidade em que vivem não permite que seja de outra forma; a linguagem é seca, escassa, como a terra em que habitam.

A intenção pode ter sido estabelecer o caos, ou apenas dar continuidade à história (mesmo sendo de enredo não-linear), mas a verdade é que acabou por transportar ao leitor sensações estranhas: entre melancolia e aflição, somos submetidos ao mais frio cárcere emocional. Chega a ser impossível não visualizar pássaros mortos esvoaçando e penas espalhadas pelo chão da caatinga; estrebuchando, enquanto ficam à mercê da morte. Apático.

2 comentários:

Sun Eyes disse...

Muito bom, Paulo!
Cássia Eller na cabeça!
Abs

Paulo Henrique disse...

Valeu, chará!

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